domingo, 29 de maio de 2011

3 polêmicas no futebol do Jardim Botânico

Por Lucas Prata

Poucos tópicos escancaram tanto a participação efetiva do interesse corporativo de um grupo de comunicação sua linha jornalística do que o futebol. Isso se exponência neste momento em que o Brasil está no olho do furacão com a responsabilidade trazida pelas escolha de sediar a Copa, que transferem o esporte para os cadernos políticos dos jornais.

Três casos recentes envolvendo a Globo apontam a prática. A primeira e mais relevante delas diz respeito a renovação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de 2012, 2013 e 2014. Como nunca antes havia acontecido, o Clube do 13, entidade então responsável por negociar em bloco quanto os clubes da primeira div
isão recebem com direitos de transmissão, criou mecânica de concorrência com envelopes fechados que a colocava em pé de igualdade com as concorrentes. Na iminência de perder os direitos para Record após décadas transmistindo o campeonato que inclusive ajudou a organizar, resolveu minar a instituição negociadora batendo a porta de cada clube individualmente.

No fim a concorrência do Clube dos 13 vencida pela RedeTV, após desistência da televisão da Barra Funda, não teve valor, os clubes de maiores torcidas (Flamengo e Corinthians principalmente) receberam cotas financeiras maiores que rivais - o que a médio prazo poderá desequilibrar os plantéis, jogando por terra o equilíbrio típico dos torneios brasileiros - e na ponta do lápis especialistas afirmam que em bloco os clubes poderiam até receber mais do que no modelo implantado a força pela Globo.

Enquanto o embrólio rolava, os canais ESPN, famosos pela linha editorial independente, os jornais Folha de São Paulo e o Estadão, além de portais como UOL davam destaque ao tortuoso caminho que a situação desenrolou, a emissora carioca e seus veículos apenas noticiavam as pontuações favoráveis ao canal, como a carta aberta em resposta ao Clube dos 13, sem o alarde apontado pelos concorrentes.


Um mês depois do desfecho favorável para Globo na negociação pelo Brasileirão, Tiago Leifert, o atual menino de ouro do time de jornalismo esportivo do canal, que revolucionou o tradicional Globo Esporte baseando seu programa na associação com o entretenimento, envolveu o canal em nova polêmica, graças a um trecho de sua entrevista à Revista GQ. Divulgada em primeira mão pelo UOL, o apresentador pediu que o romantismo no esporte fosse esquecido já que hoje ele é produto de negócios. Nenhuma novidade até certo, certo? O problema foi como ele completou a declaração:

“É verdade. Na hora de conversar sobre direitos esportivos a gente tem que perder o romantismo. Eu sou muito cobrado: "Por que você não fala de Fórmula Indy?” Simples: porque eu não tenho o direito de falar de Fórmula Indy, meu amigo! Existe uma ideia errada de que a Globo tem que falar de tudo porque o cara quer ver tudo na Globo. Meu amigo, muda de canal pra ver a sua notícia! Não tem Fórmula Indy na Globo, não vai ter Panamericano na Globo, não vai ter Olimpíada na Globo! Essa cobrança é puro romantismo! A gente tem que perder essa mania de achar que tudo é uma força do mal. Não é isso, é negócio. Quem paga mais leva e quem leva exibe”

Ou seja, o apresentador da versão paulista do Globo Esporte, principal programa do tema na maior emissora do país, afirmou que iria "esconder" as notícias da maior competição esportiva do planeta porque os direito de transmissão estão na mão da Record.

Com a velocidade das mídias sociais, choveram críticas para o rapaz no Twitter, que utilizou a própria ferramenta onde é seguido por quase 1 milhão de usuários para se defender. Por lá afirmou que apenas havia dito que a emissora não tinha os direitos, o que não necessariamente significaria não cobrir o evento. Dias depois, coube a Octávio Florisbal, diretor de programação da Globo, tentar diminuir o (possível) mau entendido, garantido que a emissora não deixaria o evento de lado.

A resposta definitiva só teremos daqui a um ano. Minha aposta pende a crença de que não haverá como não informar, já que a força com que os conteúdos serão publicados em todos os outros veículos criará desgaste a imagem da emissora caso ela deixe as Olimpíadas de lado. Surgirá aquela sensação de "como é que todos falam menos ela?", o que não significa que o tratamento a causa será da magnitude que o evento realmente clama. Aguardemos as cenas do últimos capítulos.

Para completar a tríade das polêmicas, um documentário na última semana transmitido pela BBC de Londres apontou João Havelange e Ricardo Teixeira, respectivamente o ex-presidente da FIFA e o atual (e eterno) presidente da CBF, como figuras centrais em um escândalo de corrupção dentro da entidade maior do futebol. Enquanto a maioria dos veículos noticiavam a divulgação do escândalo, a Globo e seu canal de tv a cabo Sportv, parceiros inveterados das duas figuras não tocaram no assunto nos seus principais jornais, sendo motivo de críticas de influenciadores e de usuários das mídias sociais.

Comentarista do jornal Redação Sportv, André Rizek, sofreu na pele com a situação. Questionado no Twitter porque seu programa não apresentou nenhuma matéria sobre o assunto, respondeu: “Quando for relevante e tiver grande repercussão na mídia, o fato sempre estará no Redação. Não faço campanhas, faço jornalismo”.

Em suma, disse que um escândalo envolvendo os dois brasileiros mais influentes no mundo do futebol não era relevante o suficiente para virar pauta. Estranho não?

O ponto é que essa estranheza tende a ganhar cada vez maior relevância. Com o crescimento da Record, o alto fluxo de opiniões trocadas nas mídias sociais e com o país como sede de eventos globais do esporte, a Globo poderá até continuar suas práticas jornalistas de omissão de assuntos relevantes para a saúde dos seus negócios, mas terá inspetores atentos para jogar no ventilador as suas atitudes.

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