quinta-feira, 21 de abril de 2011

A Ambevização das Pautas

Por Lucas Prata

Até aonde vai a ansia pela manutenção de um pauta? Em um cenário onde as notícias possuem prazo de validade cada vez menor, soa até estranho procurar estender um assunto. A nova tendência, porém, não se encaixa no tratamento dado as tragédias. Duas semanas após o massacre de Realengo, quando a velocidade dos muitos fatos do cotidiano já tinha tirado o assunto trending topics das redes sociais, um batalhão de reporteres esperavam as centenas de alunos da Escola Tasso de Oliveira voltarem as aulas em busca de mais 15 minutos - seja de entrega a fama para os pequenos estudantes suburbanos, ou de uma nova notícia na página inicial de um portal de notícias.

O crítico do UOL, Maurício Stycer, foi convocado pra acompanhar in loco o tratamento e a postura que os jornalistas estavam dando àquela situação e sua impressão leva a tona uma situação de tensão digna de reflexão sobre os rumos da profissão. Hoje, a constante necessidade de atualização de um veículo, faz com que os remendos que antigamente constituiriam uma única matéria completa, se transformem em pequenas dosagens de uma notícia. Qualquer pequena e até irrelevante modificação no rumo de uma história vira um motivo para um F5 no seu navegador ou pra um novo e espalhafatoso bg de um canal de tv. Todavia as doses - homeopáticas - com que essa história é contada, fazem da transformação de uma pauta em várias notícias, uma meta a ser batida típica das mais agressivas empresas do mundo corporativo. Quase uma ambevização do jornalismo.



Stycer aponta o desespero e a tensão que tomou conta das centenas de jornalistas a frente da escola em busca de uma frase de impacto ou uma reação minimamente comovente de alunos e familiares da escola, seja para um destaque, um canto de página, ou um mero tapa nas costas de um chefe de redação. Dotados de todo o aparato capaz de encantar (ou assustar) um público-alvo não acostumado com aquele frenesi, eles forçavam declarações, reconstituiam cenas e até reclamavam daqueles pequenos que não "colaboravam" com o seu trabalho. Tudo isto desrespeitando o pedido da Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, Cláudia Cosin, que havia pedido que não houvesse qualquer tipo de abordagem com os estudantes.

A resposta seca e inocente de um garoto que ao ser questionado sobre o clima da volta a escola falou que "achou maneiríssimo", é o argumento definitivo para a mal engendrada cobertura ao acontecimento. Um pequeno balde de água fria na tentativa de capitalizar algo já desgastado, ou desvirtuar a máxima proferida pelos bandolins de Arlindo Cruz, de que "o show tem que continuar".

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